Quando vivemos momentos de angústia, resta-nos algo simples: escrever. Palavras, apenas palavras. As mesmas que me acompanharam durante anos, alfabetizando. Aquelas mesmas que me fizeram apaixonar pela psicanálise, descobridora do valor que cada sílaba pronunciada imprimia no discurso das histéricas de Freud do início do século XX. Sempre acho que novas palavras vão me salvar daquelas mais velhas, que se pronunciam contra nós em momentos difíceis.
Mas, ao pensar demais e brincar demais com as palavras, travo a luta dos pequenos contra um gigante. Um épico silencioso que me faz caminhar, caminhar e muitas vezes encontrar um parente próximo do vírus da depressão, destruidor qualquer tipo de proposta de felicidade. O curioso é que, para muitos, não passa de fraqueza. Bem, se fosse um vírus seria bem fácil de cuidar. Mas, trata-se de algo bem mais poderoso. O instinto de morte sentencia a existência com algo muito mais poderoso do que o corpo, mas que dele também se apodera: está no inconsciente, cujo acesso não se tem através de comprimidos, agulhas ou bisturis. Para localizá-lo e lutar com esse gigante, só precisamos de duas coisas: coragem e palavras. Talvez seja necessário colocar mais uma coisa: uma boa indicação de analista. Ah, e dinheiro! Bons profissionais custam o olho da cara.
Se há outros caminhos? Sim. Terapias alternativas, antidepressivos, massagens, dinheiro. Queria acreditar em algum desses. Mas, já passei por alguns e só acredito a essa altura da minha vida, no caminho mais longo. E mais difícil. Aquele através do qual você tem que rastejar e chorar no escuro: o caminho do inconsciente.
Eu juro que muitas vezes, gostaria de ser outra pessoa. Queria acreditar no que pregam as religiões, queria acreditar que nos atalhos dos florais reside a minha melhora. Mas, não acredito em nada disso. Parte disso é culpa do tal instinto de morte, desgraçado que habita na instância inconsciente. Filhote do instinto de morte nasceu um ceticismo absurdo emaranhado a uma ironia que me faz ter uma vontade terrível de gargalhar numa sessão espírita. Mas, não, nunca fiz isso. E antes que os espíritas fiquem com raiva de mim, lhe digo: não percam tempo. Afinal, a desgraça é minha. Aqueles seres que juram receber entidades através de seus corpos acreditam no que fazem. Pobre é de mim, que sofro nos calabouços de meus próprios castelos abandonados, que, há muito viraram ruínas. A sorte é deles, pois acreditam. O azar é meu, que não acredito em nada que traga a marca do sobrenatural. E sofro. Mais do que eles.
Bravo! Bravo!
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