Um telefonema curto e seco de uma supervisora que chegou lá há três anos colocou um fim àquela história de dezoito anos. No dia trinta e um de dezembro daquele ano. Dezoito que se apagaram em um momento, por alguém que lá habita há três... Números que, mais do que dolorosos, te traduzem a um zero. Um zero à esquerda.
Dia 31 de dezembro. Para eles, o dia limite para demissão de professores. Para mim, o dia de Ano Novo. O sabor de um ano novo se iniciando me foi tirado. Fiquei triste naquela virada de ano. Não sei se os que costumam desempenhar o papel de carrasco empresarial têm noção do que acontece com alguém que é dispensado... Nem vou mencionar a perda financeira, perda essa grande o bastante para te fazer chorar... Falo da dor de perder uma referência, um endereço para o qual nos organizamos para chegar todos os dias e do qual saímos diariamente para voltarmos para casa, exaustos. Falo da dor da rejeição, do vazio que nos invade e grita: “E agora, para onde vou?”
Uma demissão nos deixa a questão que, primitiva, nos remota a mais tenra infância e nos perguntamos, perplexos: “O que fizemos de errado?” Quando conseguimos chegar à conclusão de que pode não ser pessoal, se é que isso serve de consolo, vemos que “cortes de custos” foram feitos. E aí, ao invés de um ser humano viramos apenas um número. Olha aí nossa existência reduzida, mais uma vez, a números.
A forma como somos dispensados diz muito sobre quem está nos dispensando. Assim como um amor, uma etapa de trabalho na vida de alguém não precisa ser concluída de uma forma desumana. Assim como um relacionamento pode ser terminado com amor, cordialidade e humanidade, penso que uma demissão pode ocorrer da mesma forma.
Mas, nem sempre é assim. Assim como grandes amores desembocam em mares de lágrimas, uma demissão pode te deixar o amargo da derrota, do questionamento de quem somos e a solidão da perda de um grupo, de uma identidade.
Mas, o humano tem a capacidade da resiliência. De renascer de todas as dores, colecionando um número grande de Fênix existenciais ao longo de sua trajetória. E renascemos. Melhores, mais fortes, mais humanos.
E se pudermos aprender que dispensar ao próximo todo o respeito que nos faltou, teremos não só sobrevivido ao bombardeio, mas teremos nos tornado mais gente.
Mas, e quem não nos tratou com respeito que julgávamos merecer? Bem, eis aí outra grande lição: não importa. Temos que engolir a dor, superar e ficar com o que é nosso. Dizem: “Fica um pouco de perfume nas mãos de quem dá flores”. Nesse caso, o perfume é meu.
Regina...
ResponderExcluirSei bem como se sente.
Você disse bem: "Temos que engolir a dor, superar e ficar com o que é nosso."
Com a alma iluminada e o perfume de tuas mãos,
siga em frente. Continue a perfumar novas trilhas.
bj
Acho tão forte essa postagem, as vezes dedicamos nossa vida, deixamos para trás relacionamentos por causa do trabalho, e um momento descobrimos que nunca fomos ninguém para a empresa.
ResponderExcluirMe identifiquei muito com essa postagem, passei por algo semelhante... no momento mais difícil de minha vida, estava doente ainda não sabia se tratava-se de um câncer e fui demitido no dia do meu aniversário.
Graças as boas energias tudo deu certo superei,mas nunca mais consegui ser o mesmo. Acho que nunca mais conseguirei, tive de ir para a justiça para ter o minimo dos meus direitos garantidos.
Nossa!!Forte é o que aconteceu com vc, Marcello... Pelo menos, meus direitos foram respeitados...Mas, acredito no q escrevi... Estamos aqui para superar.... O perfume é nosso...
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