quinta-feira, 17 de novembro de 2011

E agora?

Depois da demissão, sonhava muito com uma viagem. Eu queria estar em algum lugar da Itália naquele momento. Mais precisamente em Roma, perto do Coliseu.  A primeira vez que circundei aquele monumento, estava dentro de um ônibus. É inacreditável ver que aquela beleza realmente existe. Passamos a vida vendo monumentos através de fotografias e quando finalmente se apresentam à nossa frente, é como se sonhos viessem ao nosso encontro... Ver história se transformar em verdade é a melhor forma de ver sonhos tornarem-se realidade.
Aliás, se você quiser viver um sonho, escolha um lugar do mundo e junte dinheiro para ir até lá. Escolha algo que tem haver com sua alma, sua visão de mundo, sua história. E vá até lá. Se você for uma mulher, escolha um lugar, junte dinheiro e faça planos minuciosos para chegar. Sonhe com um belo país, uma bela cidade. Sonhe com eles. Não sonhe com príncipes encantados. Esses, definitivamente, não existem. O coliseu estará lá. Pode sonhar com ele, pois um dia poderá encontrá-lo. O príncipe? Desista.
Bem, eu não estava podendo mesmo ir para a Itália e tinha que procurar algo que me encantasse. Tinha que encontrar um Coliseu por aqui mesmo. Depois de tentar desesperadamente me colocar no lugar de vítima, não sustentei isso por muito tempo. Em trabalho de análise isso se torna impossível. Sim, ao invés de viajar, fui procurar análise. Ai, ai, eu e meus longos caminhos. E ainda por cima fui escolher a abordagem lacaniana. Trabalhando com o tempo lógico e intervenções que podem deixá-lo literalmente de calças arriadas em plena sessão, esse tipo de análise não é para qualquer um. Só se enfrenta um ringue barra pesada desses quem já sofreu muito e não aguenta mais abordagens que só massageiam o seu ego. Com as leituras de Freud e as aulas da pós-graduação, ficou mais fácil me colocar nessa escuridão que a entrada ao nosso inconsciente traz. Tornou-se mais fácil, mas, nunca, nunca foi fácil. Para falar a verdade, houve algumas sessões nas quais me sentia como uma criança. Aconteceu de, numa das sessões, a analista ter me pego tão de surpresa, que àquela altura já era temida por mim a frase “vamos ficar por aqui”. Não só me senti com as calças arriadas, mas tendo que sair assim, com a bunda de fora. Direto para a rua. Sem defesa, tonta, desorientada.
Bem, o manejo da análise dá ao dono daquele espaço o poder de decisão a respeito da sua capacidade de aguentar a bordoada que ele lhe dá. Aguentei, mas confesso que pensei dez vezes antes de voltar na sessão seguinte. O que ela disse?  “Por que você não assume de uma vez que essa demissão foi a melhor coisa que te aconteceu e que agora, você tem que seguir o caminho do seu desejo?” Fiquei muda durante cinco minutos e aí, ela disse a frase fatal. E saí, com a bunda de fora. Sem poder achar mais o lugar de vítima.
Ao trazer conteúdos inconscientes e impossíveis de se alcançar solitariamente, o trabalho analítico nos traz a oportunidade de responsabilização sobre tudo o que acontece em nossa vida. Por isso não é para qualquer um. Conheço alguns perversos que jamais voltariam para outra sessão depois de uma bordoada dessas. Mas, eu voltei. Afinal, ainda tinha que matar assombrações que ainda existiam na minha vida.

3 comentários:

  1. Boa noite, Regina!
    Texto lúcido, muito bom.
    Garimpando na net encontrei teu blog.
    Posso ficar?

    Parabéns pelo texto.

    beijo.

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  2. Volume 10, não só pode, como deve ficar. Fico m. feliz q pessoas assim me achem. Será um prazer! Um beijo, seja bem vinda!

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  3. Engraçado você falar em demissão com esta meio mágoa, meio tristeza. Não foi você que foi demitida. Alguém, que está muito além daqui onde vivemos, mexeu os pauzinhos e decretou que a empresa em que você trabalhava não pertence mais ao seu mundo. Acabou. Foi-se. Outra missão vai surgir. Aí, talvez nisso pensemos diferente, é que está a hora de fazer um pacote e deletar o que estava agregado ao que já é passado... Nada é por acaso. Nem mesmo o que propostalmente feito

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